Os hipermercados são um lugar horrível: cínico, falso,
cruel. À entrada, os consumidores limpam a sua má consciência reciclando rolhas
e pilhas velhas, ou doando qualquer coisa ao sos hepatite, ao banco alimentar
ou ao pirilampo mágico.
(...)
Vou-vos relatar apenas a minha banal experiência diária (sem
pontos de exclamação já que o escândalo é comum a qualquer um dos tópicos que
irei descrever). Espero que sirva de alguma coisa, apesar de saber que ninguém
se incomodará muito com ela. Afinal, é a mesma selva que está já em todo o
lado.
1 – Salário
Trabalho 20h semanais em troca de 260€ mensais, o que dá
pouco mais de 3€ por hora. Que isto se possa pagar a alguém em 2015 devia ser
motivo de vergonha para um país inteiro. Que seja um milionário a pagar-me esta
esmola devia dar pena de prisão efectiva.
2 – Precariedade
Já vou no terceiro ‘contrato’ de seis meses e ainda não
passei a efectiva. Quando chegar a altura em que poderei finalmente entrar para
o quadro, serei dispensada como tantas outras. A explicação para a quebra
brutal na natalidade está encontrada: afinal, alguém consegue ter filhos nestas
condições?
3 – Trabalho não remunerado fora do horário de trabalho
Se o futuro é uma incógnita, o presente é sempre igual:
todos os dias, sem excepção, trabalho horas extras grátis que me são impostas.
O meu horário de saída é às 15h mas, depois dessa hora, ainda tenho para
executar várias tarefas obrigatórias, que me levam entre 15 a 20 minutos
diários, como arrumar os cestos das compras e os artigos que os clientes deixam
ficar na caixa ou guardar o dinheiro no cofre. No quase ano e meio que levo a
trabalhar no Continente, devo ter saído uns 5 dias, no total, à hora certa. E
já cheguei a sair uma hora e meia depois das 15h, apesar de os meus superiores
saberem muito bem que dali ainda vou para outro trabalho e de, por isso, eu ter
sempre imensa pressa para não me atrasar.
4 – Trabalho em dias de folga
Para perpetuar a falta de funcionários na loja, obriga-se
aqueles que lá estão a trabalharem pelos que fazem falta, oferecendo assim
todos os meses algumas horas do seu tempo de vida e de descanso ao patrão, que
deste modo poupa no número de salários a pagar. Mais absurdo: num dia em que
esteja de folga, posso ser convocada para ir à loja para fazer inventário. Sou
obrigada a ir, apesar de estar na minha folga, e apenas posso faltar mediante
justificação médica. E, como se não bastasse, até já aconteceu eu ser avisada
no próprio dia da folga.
5 – Cada segundo de exploração conta
Neste ano e meio, cheguei uma única vez 5 minutos atrasada e
a minha superior foi logo bruta e agressiva comigo, tendo-me gritado e agarrado
pelo braço, apesar de supostamente haver uma tolerância para se chegar até 15
minutos atrasada. Nunca mais voltei a atrasar-me. Nem 10 segundos. (Já sair
pelo menos 15 minutos mais tarde do que a hora prevista, isso é todos os dias.)
6 – Formatação do corpo
Relativamente à aparência física, devemos formatá-la
meticulosamente, ao gosto sexista do patrão. Na loja onde trabalho, várias
colegas tiveram por isso de eliminar os seus pírcingues, apagar também a cor
das unhas (lá só é admitido o vermelho) e uma até teve de mudar de penteado. O patrão
quer que nos apresentemos como autênticas bonecas. Faz lembrar os escravos que
eram levados para as Américas, a quem se retiravam as suas marcas corporais
para serem explorados sem outra identidade que a de escravos (seres humanos
transformados em mercadorias).
7 – Pausa para comer/urinar/descansar é crime
Mas o pior de tudo é mesmo o que acontece durante o tempo de
trabalho. Os meus superiores querem que eu esteja as 4 horas sentada a render o
máximo que é humanamente possível, por isso, dificultam ao máximo as minhas
pausas – que são legais e demoraram séculos a conquistar – para ir comer
qualquer coisa ou ir simplesmente à casa de banho. A única coisa que me
autorizam a levar para junto de mim, no meu posto de trabalho na caixa, é uma
garrafinha de água previamente selada e nada mais. De resto, o que levar para
comer e beber (sumos e iogurtes líquidos não podem ir comigo para a caixa)
tenho que deixar no Posto de Informações e só tenho acesso quando da caixa
telefono para lá. Normalmente, no Posto, fazem que se esquecem desses pedidos,
passando uma eternidade até eu finalmente conseguir ir comer. E, quando a muito
custo lá consigo obter autorização para ir comer, sou pressionada para ser
ultra rápida, pelo que em vez de mastigar estou mais habituada a engasgar-me. O
mesmo acontece com as idas à casa de banho, sempre altamente dificultadas.
8 – Gerem-nos como se fôssemos animais
Há uns tempos, uma colega sentiu-se mal quando estava na
caixa, fartou-se de pedir licença para ir à casa de banho, mas foi obrigada
como de costume a esperar tanto, tanto que lá se vomitou, quase em cima de um
cliente.
Não se calem e denunciem todos os abusos nas redes sociais e
nos blogs.
(gostava imenso de assinar, mas os 260€ do salário fazem-me
tanta falta)
Fonte:
https://obeissancemorte.wordpress.com/2015/02/21/sobre-os-abusos-permanentes-aos-trabalhadores-dos-hipermercados-continente-por-trabalhadora-abusada/
Interpretação da notícia:
Este é um relato de alguém que luta no seu quotidiano para fazer a
diferença. O relato acima descrito manifesta o desagrado de um funcionário no seu posto de trabalho, mais especificamente num hipermercado. Além desse descontentamento parece desumano e cruel que um trabalhador possa ser tratado desta maneira, como é dito no título deste artigo ''As pessoas estão no centro do sucesso'', contudo nem sempre são tratadas dessa maneira, até pelo contrário.
Este relato deveria chocar qualquer pessoa mas a verdade é que a maioria dos
trabalhadores trabalham nas condições acima descritas, pois não reclamam (por medo de serem despedidos ou de sofrerem represálias) e são casos geralmente muito meticulosos para serem julgados. Esta hipocrisia chega ao ponto dos hipermercados, em forma de campanha de marketing, afirmarem que se importam com a temática dos recursos humanos e que os seus trabalhadores são a sua principal causa, facto que não acontece.
Como é esperado que uma organização funcione na sua plenitude com estas práticas de recursos humanos? Será possível que algum administrador/chefe pense que esta forma de gerir é a melhor para a sua empresa? Não são capazes de perceber que, tal como eles, os seus funcionários/colaboradores são seres humanos, e como tal têm necessidades tão banais, como por exemplo ir a casa de banho durante o seu trabalho? Estas são perguntas tão inquietantes que parecem ter uma resposta lógica, mas infelizmente nem todos conseguem perceber esta lógica.